Entrevista com o percussionista e multi-instrumentista Renato Martins.

Entrevista com o percussionista e multi-instrumentista Renato Martins.

MUNDO PERCUSSIVO entrevista o percussionista multi-instrumentista Renato Martins.

Por: André Jaued

 

O multi-instrumentista Renato Martins, nascido no Rio de Janeiro e criado em São Paulo, começou a tocar percussão e piano quando tinha apenas quatro anos de idade. Sua formação musical começou aos seis com o maestro Silvio Tancredi. Estudou bateria e piano, concentrando-se na música popular brasileira e no jazz, na Escola do Zimbo Trio, o CLAM. Finalizou seus estudos de música com os cursos de piano erudito com a professora Leda Maria Chacur Alves e de composição e regência na Faculdade de Arte Santa Marcelina.

Renato foi um autodidata na maioria de suas técnicas de percussão e criou novas técnicas para instrumentos tradicionais como o UDU (vaso de barro) e o CAJON. Tornou-se conhecido pela utilização de objetos do cotidiano, como utensílios de cozinha, como instrumentos de percussão e foi considerado um dos maiores percussionistas do país e um renovador da percussão brasileira pela mídia especializada.

 

 

ENTREVISTA:

 

MUNDO PERCUSSIVO: Como multi-instrumentista diante tantos trabalhos e vertentes relacionado à música, quando e como começou o seu envolvimento musical e com a percussão?

RENATOVivo batucando em tudo desde os 3 ou 4 anos de idade. A paixão pela música e principalmente pela percussão tornou-se evidente bem cedo para os meus pais que me deram todo o apoio desde o princípio. Com essa idade já tive acesso também ao teclado. Conta minha mãe uma estória interessante sobre uma sanfoninha da Hering que tive quando era pequeno e na qual fiz minhas primeiras composições: “O Povo” e “Diamante Negro”, essa em homenagem ao chocolate. Ela jura que a música era a mesma toda vez que eu tocava na sanfona. Coisa de mãe coruja? Quem sabe?

Tive a sorte de ter com frequência na nossa casa rodas de samba e mpb onde músicos excepcionais levavam violão e instrumentos de percussão. Em alguns momentos, os instrumentos ficavam ali dando sopa e eu podia pegar e dar minha palhinha.

A música escutada em casa era variada. Astor Piazzolla, Beatles, Elvis, música erudita, mas havia grande predominância de  mpb, chorinho e samba. Samba, samba, samba...familia de cariocas! 

O incansável batucar instalou-se bem cedo na vida! Como esquecer dos bons tempos de bandas marciais? Comecei aos sete anos de idade a tocar surdo na banda do colégio, passando depois para a caixa. Nos últimos anos estava tocando congas e bateria na banda do Colégio Arquidiocesano que venceu 23 dos 25 campeonatos em que participou em certo  ano. Muitos músicos profissionais atuando hoje em dia também vieram dessa escola de bandas marciais.

Com a adolescência veio também o inevitável Heavy Metal. A vida resumia-se em tocar bateria, sempre com aquele cabelão (que saudade!) e as roupas pretas. Foi um momento muito importante,  pois foi quando realmente decidi o que queria fazer na minha vida: tocar!

 

MUNDO PERCUSSIVO: Um dos destaques na sua carreira de percussionista é o trabalho com objetos inusitados e do cotidiano na composição de seus temas e do seu set de percussão. Conte um pouco mais sobre esta forma de apresentação do seu trabalho percussivo e o seu envolvimento com estes “instrumentos inusitados”.

RENATOSempre foi muito normal batucar o tempo todo e em tudo. Depois do almoço de domingo, a batucada com as coisas da mesa sempre acontecia, com direito à vovó fazendo o surdão, com a mão fechada no gravão da mesa. Acabei pesquisando com seriedade e desenvolvendo técnicas específicas para objetos, principalmente os de cozinha. Em certo momento veio a idéia: mas por que não usar esses recursos com timbres tão legais e incorporar esse “arsenal” ao set? Funcionou super bem e nunca mais parei com a mania! Isso também foi muito positivo, pois foi o que deu início ao processo de composição exclusivamente para grupo de percussão.

 

MUNDO PERCUSSIVO: Alguns percussionistas optam por direcionar seus trabalhos baseados na percussão oriental, outros aplicam, como base, em suas criações, estudos da percussão latina ou africana. O udu, (instrumento de origem africana), e o cajon, (instrumento de origem afro-peruana), são bem marcantes em suas apresentações. Como você definiria sua linha de trabalho? Em suas criações, existe algum segmento da percussão que seja mais marcante e um instrumento, em especifico, que você tenha mais envolvimento?

RENATOConfesso que nunca tive aula de percussão e também nunca me aprofundei muito nas técnicas e ritmos tradicionais dos instrumentos. Sempre preferi procurar, encontrar minha linguagem, meu jeito de tocar, mais como possibilidade de expressão. Acho importante conhecer e saber tocar o tradicional, mas acho que é necessário também seguir em frente, ser aberto e experimentar novos caminhos. O Udu é um instrumento fascinante que exige de você, na minha opinião, esquecer tudo o que aprendeu de percussão e começar uma nova linguagem. O desafio de tocar esse novo e sutil instrumento transformou-se em um verdadeiro relacionamento. Posso dizer que é o instrumento que mais gosto de tocar e com o qual me sinto mais “em casa”. É inevitável a preferência pelos maravilhosos ritmos brasileiros.

 

MUNDO PERCUSSIVO: Existe uma relação, muito forte, com o processo de educação no seu trabalho. Um dos seus últimos trabalhos, relacionados ao processo educativo, foi o projeto “Clínica” que inclusive estará em turnê aqui no Brasil este ano. Como educador, diante suas experiência em vários países, como tem sido trabalhar com a educação musical utilizando-se dos recursos percussivos? Conte-nos um pouco sobre o projeto “Clínica” e como surgiu essa ideia?

RENATO: A CLÍNICA DE PERCUSSÃO CRIATIVA significou o retorno ao processo criativo depois do período em que trabalhei como percussionista para o Cirque du Soleil. Comprei uns microfones e também, meio relutante, a loop sation RC-50 da Boss. Estava de olho no equipamento havia um bom tempo e surgiu então a oportunidade de comprar. De volta à Bélgica, chegou o momento de experimentar e utilizar o recurso que esse equipamento oferece,  permitindo a sobreposição de frases rítmicas ou melódicas em infinitos “overdubs”. O que mais alguém pode querer? Percebi que era o que eu precisava, não só para montar um repertório de show solo, mas também como um bom aliado que ajudaria muito para poder passar um pouco do conhecimento e da técnica dos instrumentos que utilizo mais nesse momento, o cajon, o udu e os objetos do cotidiano. Nascia a Clínica de Percussão Criativa! Então estou muito satisfeito com o resultado do trabalho e com a receptividade do público quando apresento a clínica, pois viabiliza realmente a possibilidade de compartilhar não só o aspecto técnico percussivo, mas também o papel que a criatividade pode desempenhar na carreira musical, o que tem atraído a presença não só de percussionistas e bateristas às apresentações, mas também músicos de outros instrumentos. É evidente que a percussão e o ritmo são portas de entrada do processo de educação musical e são essenciais para qualquer um que queira iniciar o estudo de música e em qualquer que seja o instrumento.

 

MUNDO PERCUSSIVO: Seu trabalho foi compartilhado com grandes nomes da música nacional e internacional e sua participação foi de grande importância em premiações, eventos e shows importantes, relacionados à música instrumental. Caminhando pelas trilhas do Jazz, MPB, da música experimental, trabalhos instrumentais e da música étnica como estas expressões estão inseridas em seu processo criativo e quais foram suas influências e maiores referências musicais?

RENATOO segmento da música instrumental brasileira agrega grande variedade de estilos e culturas diferentes. É um certo “vale-tudo”, pois a gente tem à disposição como material toda a variedade e maravilha dos nossos ritmos afro-brasileiros, a liberdade da improvisação , as harmonias do jazz e elementos dessa quantidade infinita de música maravilhosa que é feita no mundo. Acho que você não escolhe o caminho da música instrumental, mas é escolhido quando tem a sorte de poder ter a oportunidade de ter contato com esse tipo de música, que raramente é veiculado pelos meios de comunicação.

No meu caso, fui exposto á música instrumental desde muito cedo. E tive também a sorte de escutar muito a nossa refinada MPB de João Bosco, Chico, Elis e muitos outros com suas harmonias e arranjos requintados, tudo “com um pé no jazz”.  E não poderia esquecer de mencionar o chorinho com Altamiro, Waldir e Carlos Poyares que tanto escutei quando era moleque! Que sorte a minha!

Fui muito influenciado pelo jazz americano e ”queimei” vinil e fita cassete do Oscar Peterson, Chick Corea, Keith Jarrett e de toda essa turma de tanto escutar.

Hermeto Pascoal é Egberto Gismonti sem dúvida são grandes mestres e fonte de inspiração para qualquer um que tenha se interessado em música instrumental e em tocar um instrumento. Pessoalmente foi Hermeto uma grande inspiração porque deu o sinal verde para a total liberdade de expressão dentro da música instrumental, “festejando” a música como ela deve ser, sem fronteiras e sem restrições.

 

MUNDO PERCUSSIVO: Em 2003 foi lançado seu primeiro CD intitulado “Indaiá”. Qual a identidade deste trabalho?

RENATOO Indaiá é um sonho que foi concretizado. Veio de uma necessidade de registrar e tornar disponível todo um universo musical de muitos anos sentado e compondo ao piano e também de muito “batuque”. Era hora da vida virar realmente trabalho. Então reuní bastante do que vivenciei musicalmente até aquele momento para ter um produto, e assim também um objetivo mais definido e maduro quanto à minha carreira musical. Não houve a preocupação em ter um estilo definido e dentro de um segmento específico da música. É fácil perceber na obra a mistura de elementos de culturas e músicas de lugares diversos com a liberdade e as harmonias do jazz e é também evidente a presença da brasilidade e de nossos ritmos brasileiros. Chamam isso de música instrumental brasileira...que sorte a gente tem!

 

MUNDO PERCUSSIVO: Morando e tocando há uns bons anos fora do Brasil e sendo um percussionista brasileiro, como você relata a receptividade da “ginga percussiva brasileira”, mesmo que não seja demonstrando-a através do samba, fora de nosso país?

RENATOO Brasil é conhecido mundialmente por sua percussão, por suas grandes festas movidas a tambores e consequentemente a receptividade para um percussionista brasileiro no exterior é realmente muito grande. Faz realmente uma diferença quando você diz que é brasileiro e você sabe que em algum momento você vai ter que sambar. E por que não?

 

MUNDO PERCUSSIVO: Dentre tantas experiências, como foi participar do espetáculo “OVO”, do Cirque Du Soleil, trabalhando com uma equipe que, com muito esmero, une a expressão corporal/visual à música, e principalmente à percussão, em todos os shows do circo?

RENATOO Cirque du Soleil é uma companhia enorme e muito conhecida pela busca pela perfeição em seus espetáculos ao redor do mundo. O profissionalismo está em primeiro lugar e o trabalho do músico nos shows exige muita concentração e disciplina. Nos shows de turnê, como no caso do OVO, são aproximadamente dez shows por semana. O percussionista no Cirque du Soleil tem um papel importante tendo normalmente que atuar na frente do palco, interagindo com os outros artistas. Foi uma experiência extremamente importante para a minha carreira.

 

MUNDO PERCUSSIVO: Hoje, depois de tantos caminhos percorridos ao lado da percussão, representando, com tamanha qualidade, o percussionista brasileiro, como você descreveria sua relação com todo este processo percussivo?

RENATO: Acho que continuo vendo a percussão da mesma maneira de sempre. Eu preciso me divertir quando estou atuando e acho bem importante interagir com o público e saber que ele está tendo um bom momento e que também está se divertindo. A percussão proporciona a possibilidade de expressão e de passar um pouco como a gente realmente é. O aspecto lúdico da percussão oferece possibilidades de bons momentos de humor e de descontração, que acredito que sejam ingredientes necessários para uma performance musical destinada a um público que sai de casa buscando informação, mas ao mesmo tempo para se divertir. Tentando definir: “a gente vai batucando a vida!”.

 

 

AGRADECIMENTOS:

Em nome de todos que acompanham o projeto MUNDO PERCUSSIVO e que admiram seu trabalho, quero agradecê-lo pelo carinho e atenção disponibilizada a nós. Não só como músico, más pelo grande trabalho que desenvolve em prol da percussão e da música.

Representando o Brasil, com seu belíssimo trabalho, de uma qualidade impar no cenário mundial, Renato Martins gostaríamos de deixar o nosso muito obrigado!

RENATOEu que tenho que agradecer por essa oportunidade de compartilhar um pouco das “aventuras” com vocês e participar desse projeto tão importante para a percussão. Parabéns ao Mundo Percussivo pelo site, pelas informações valiosas que estão à disposição do pessoal da percussão. Muito obrigado a vocês e um grande abraço a todos! Batuca Brasil!

 

 

 

 

 


 


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